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Higiene do Sono: 10 Dicas para sua Saúde Mental

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Jussara Prado

CRP 08/PJ-02243
Mulher Cis Bissexual [ela/dela]

A Importância do Sono para a Saúde Mental

A importância do sono para a saúde mental e o desenvolvimento neurocognitivo.

Dormir bem não é apenas um luxo ou um intervalo na produtividade; o sono é uma necessidade biológica essencial para a manutenção da vida e do equilíbrio psíquico. Durante o repouso, o cérebro realiza processos fundamentais de reorganização de circuitos neurais, consolidação da memória e regulação emocional. O sono profundo, especialmente a fase delta, está altamente correlacionado ao desempenho em testes de memória e à saúde cognitiva a longo prazo.

A falta de uma higiene do sono adequada — seja pela privação crônica ou pela baixa qualidade — resulta em uma sensação de “névoa mental” (brain fog), irritabilidade e maior dificuldade em lidar com o estresse do cotidiano. A ciência demonstra que o sono insuficiente reduz drasticamente nossa capacidade de prestar atenção e de regular emoções, funcionando como um fator de risco para diversos transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Além disso, a insônia persistente está ligada a riscos médicos graves, como hipertensão e diabetes.

Para quem busca bem-estar, entender e aplicar a higiene do sono é o primeiro passo para construir uma base sólida de saúde integral. O investimento em hábitos noturnos saudáveis não visa apenas a quantidade de horas, mas a qualidade do descanso que permite à pessoa sentir-se restaurada ao despertar.

Neurodivergência e Sono: O Desafio de Mentes Atípicas

Acomodações sensoriais para uma higiene do sono neurodivergente-friendly.

Se você convive com o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) ou é uma pessoa autista, talvez já tenha sentido que o sono parece um “castigo” ou um desafio intransponível. No cérebro com TDAH, o sistema que regula o ciclo sono-vigília tende a ser menos efetivo, e o ritmo circadiano muitas vezes é “atrasado”, fazendo com que a pessoa se sinta mais alerta e ativa durante a noite. Esse fenômeno é conhecido como Síndrome do Atraso da Fase do Sono e é comum em adolescentes e adultos neurodivergentes.

Além disso, pessoas neurodivergentes frequentemente lidam com hipersensibilidade sensorial: ruídos, luzes ou texturas que outros ignoram podem manter o sistema nervoso em estado de alerta máximo, impedindo o relaxamento necessário para o início do sono. O “ruído visual” de um quarto bagunçado, por exemplo, pode ser processado como um estímulo perturbador para mentes autistas, dificultando o desligamento cognitivo.

Nesses casos, a higiene do sono precisa ser adaptada para respeitar as necessidades sensoriais e o funcionamento neurobiológico único de cada indivíduo. A adoção de ferramentas como máquinas de ruído branco, fones de ouvido com cancelamento de ruído ou cobertores pesados pode ser parte integrante de uma estratégia de higiene do sono neuroafirmativa.

Estresse de Minorias e a Noite de Descanso LGBTQIAPN+

Para a comunidade LGBTQIAPN+, a qualidade do sono também é atravessada por fatores sociais e políticos. O conceito de Estresse de Minorias explica que o sofrimento vivenciado por essa população não advém de sua identidade, mas do preconceito, da discriminação e da violência estrutural do ambiente. Esse estresse crônico gera alterações psicofisiológicas constantes, como o aumento do cortisol e da frequência cardíaca, mantendo o corpo em estado de hipervigilância.

Experiências discriminatórias recorrentes levam à redução da resposta imunológica e estão diretamente ligadas a distúrbios do sono. Pessoas trans e não binárias, em particular, podem enfrentar dificuldades adicionais de sono relacionadas à disforia de gênero ou à falta de ambientes seguros para o repouso. Por isso, estabelecer uma rotina de higiene do sono que valide a identidade da pessoa e crie um refúgio seguro é uma estratégia vital de sobrevivência e preservação da integridade psíquica. No contexto do Janeiro Branco, reforçar a higiene do sono é também um ato de cuidado coletivo com as comunidades minorizadas.

10 Dicas Práticas de Higiene do Sono para Transformar sua Rotina

Praticando a higiene do sono através da leitura e luz baixa antes de dormir.

A higiene do sono consiste em um conjunto de hábitos e modificações ambientais que sinalizam ao corpo que é hora de desacelerar. Para que a higiene do sono funcione, a consistência é mais importante do que a perfeição imediata. Aqui estão 10 estratégias baseadas em evidências:

1. Mantenha a consistência: Tente ir para a cama e acordar no mesmo horário todos os dias, inclusive nos finais de semana. Isso ajuda a regular seu “relógio biológico” interno e evita o chamado “social jetlag”.

2. Controle a luz azul: Evite telas (celulares, tablets, TVs) pelo menos 1 a 2 horas antes de dormir. A luz azul emitida por esses dispositivos suprime a produção de melatonina, o hormônio que prepara o corpo para o sono. Utilize filtros de luz quente se o uso for inevitável.

3. Crie um “Ritual de Descompressão”: Uma hora antes de deitar, troque atividades estimulantes por relaxamento, como um banho morno, música suave ou leitura de um livro físico.

4. Use a cama apenas para o essencial: Treine seu cérebro para associar a cama apenas ao sono e à atividade sexual. Evite trabalhar, estudar ou comer deitado para não enfraquecer o vínculo mental entre a cama e o repouso.

5. Cuidado com a cafeína e nicotina: Evite estimulantes no período da tarde e noite. A cafeína pode permanecer no organismo por 6 a 9 horas, prejudicando a fase inicial do sono.

6. Reduza o álcool: Embora pareça relaxar, o álcool causa fragmentação do sono e suprime as fases REM, impedindo um descanso verdadeiramente restaurador.

7. Ajuste o ambiente: O quarto deve ser um “santuário” de higiene do sono: escuro, silencioso e com uma temperatura fresca (tons amarelados de luz são preferíveis à noite).

Ambiente ideal para a higiene do sono: escuro, organizado e fresco.

8. Exercite-se no horário certo: A atividade física regular melhora a qualidade do sono, mas evite exercícios intensos até 3 horas antes de dormir, pois eles elevam a temperatura corporal e o estado de alerta.

9. Gerencie as preocupações: Se sua mente “acelera” ao deitar, tente anotar suas preocupações em um diário horas antes de ir para o quarto. Esse “descarregamento mental” é uma técnica poderosa de higiene do sono.

10. A “Regra dos 20 Minutos”: Se não conseguir dormir em cerca de 20 minutos, levante-se. Vá para outro cômodo, faça uma atividade calma sob luz baixa (como ouvir sons de natureza) e só volte para a cama quando sentir sono real. Isso evita que o cérebro associe a cama à frustração de estar acordado.

Quando a Dificuldade de Dormir Precisa de Acompanhamento?

Muitas vezes, a higiene do sono sozinha pode não ser suficiente, especialmente quando existem condições subjacentes como a apneia do sono, depressão ou ansiedade generalizada. Se a dificuldade de iniciar ou manter o sono ocorre pelo menos três vezes por semana, durante três meses ou mais, e causa prejuízo significativo no funcionamento diário, é necessário buscar avaliação profissional.

O tratamento padrão-ouro para a insônia crônica é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I). Diferente do uso isolado de medicamentos, a TCC-I atua nas causas comportamentais e cognitivas da falta de sono, utilizando técnicas de restrição de sono e controle de estímulos para reeducar o cérebro. Além disso, a avaliação neuropsicológica pode identificar se os problemas de sono estão mascarando ou agravando sintomas de TDAH ou outros transtornos do neurodesenvolvimento.

Conclusão: Dormir é um Ato de Cuidado e Resistência

A jornada para uma boa saúde mental passa, obrigatoriamente, pela qualidade das suas noites. Praticar a higiene do sono é reconhecer que seu corpo e sua mente merecem respeito e regeneração. Para pessoas neurodivergentes e a comunidade LGBTQIAPN+, recuperar o direito ao descanso de qualidade é uma forma de resistência contra a exaustão imposta pela camuflagem social e pelo estigma.

Não espere pelo “momento perfeito” para começar. Escolha dois ou três hábitos de higiene do sono para implementar hoje mesmo e observe como pequenas mudanças podem criar ondas de alívio na sua saúde emocional.


Este conteúdo é educativo e não substitui o acompanhamento profissional.


Na Autenticah, oferecemos suporte transdisciplinar com profissionais especializados em saúde mental, psicologia, nutrição e medicina, sempre com um olhar atento às diversidades e neurodivergências. Se você sente que sua qualidade de vida está sendo afetada por problemas de sono, estamos aqui para acolher sua história com ética e ciência..


Sugestão de Leitura


Referências Utilizadas

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  • AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Guidelines for psychological practice with transgender and gender nonconforming people. American Psychologist, v. 70, n. 9, p. 832-864, 2015.
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  • CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A Psicologia frente ao mundo digital: orientações para a atuação profissional com crianças e adolescentes. Brasília: CFP, 2025. Disponível em: https://site.cfp.org.br. Acesso em: 20 nov. 2024.
  • CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Manual Neuropsicologia: Ciência e profissão. Brasília: CFP, 2022. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/cartilha-neuropsicologia/. Acesso em: 20 nov. 2024.
  • CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO PARANÁ (8ª REGIÃO). Nota Técnica CRP08 nº 1/2024: Orienta profissionais de Psicologia sobre o uso de linguagem inclusiva na atuação da Psicologia com a população trans e não binária. Curitiba: CRP-PR, 2024. Disponível em: https://crppr.org.br. Acesso em: 20 nov. 2024.
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  • PRICE, Devon. Unmasking Autism: Discovering the New Faces of Neurodiversity. Harmony, 2022.
  • SOLANTO, Mary V. Cognitive-Behavioral Therapy for Adult ADHD: Targeting Executive Dysfunction. New York: Guilford Press, 2011.

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